"Viagem ao Túnel do Tempo"
No dia 16 de agosto/21 tive a oportunidade de ir até
Taguatinga, a cidade satélite onde eu nasci. Fiz questão de descer no centro,
na praça do relógio, e ir andando até a rua onde morava.
No momento em que pisei naquela praça, cenas de uma Natal
marcante vieram a minha mente. Nosso presente de Natal daquele ano foi poder
escolher um brinquedo (com preço bem limitado), poder ver as luzes da praça e
brincar em seu gramado com minha mãe e meus outros três irmãos. Nunca me
esqueci deste Natal.
Logo em seguida passei em frente ao “Santuário Nossa Senhora
do Perpétuo Socorro”. Meu pai era católico e fez questão de batizar todos os
seus filhos. Foi nesta igreja Católica onde fui batizada e fui dama de honra
pela primeira vez no casamente dos meus tios Dirceu e Isani. Eu tinha quatro anos e uma
das cenas que não me esqueço foi o momento em que estava em um “salão de
beleza”, fazendo um super penteado, sentada sobre dezenas de revista para poder
alcançar o “secador de cabelos” de tão pequena que eu era.
Enquanto caminhava pela Comercial Norte não pude evitar
olhar para as pessoas mais velhas que passavam e perguntar a mim mesma: ”Será
que, de alguma forma, eu tive algum contato com estas pessoas há 20 anos?” Ou
quando elas eram jovens ou adolescentes eu pensava: “Será que eles são filhos
de alguém que eu conheci?” Louco, não é?
Outro ponto marcante desta “Viagem ao Túnel do Tempo” foi
visitar a minha primeira escola. Escola Classe 6. Comecei a estudar ali aos 6
anos de idade. Ainda me lembro, como se fosse hoje, daquela garotinha
absurdamente tímida e envergonhada que nem tinha coragem de pedir a professora
para ir ao banheiro. Incrível como depois de 39 anos estas sensações ainda
estavam tão vivas.
Descendo a avenida interna entre a Comercial e as quadras
residenciais, eu ficava cada vez mais admirada com as mudanças de tudo. Mal
reconheci a entrada da rua onde morava. Como aquela rua havia “encolhido”. Ela
era tão larga e longa quando eu era pequena, ooops! Pequena não, criança.
Minha primeira missão ali era encontrar a Dona Diran e sua
família. Ela era muito amiga de minha mãe. Não sabia exatamente onde ficava a
casa. Vi uma jovem senhora duas casas abaixo limpando o carro e pedi
informação. Para minha surpresa era outra amiga de infância, Marcinha. Na
verdade eu era contemporânea da irmã dela, Marilene, que morreu com o marido e
filhos há 12 anos em um acidente de automóvel. Marcinha me mostrou a casa e foi
comigo. Foi emocionante, principalmente quando ela perguntou pela minha mãe.
Ninguém na rua sabia que minha mãe havia morrido em 2009.
De lá fiz questão de ir à casa de Dona Eunice Costa. Deus
havia me incomodado bastante para visitá-la porque foi através do ministério
corajoso e solitário dela que eu conheci a Jesus como meu Salvador. Ela tinha
dez filhos, seu esposo não era um servo de Deus, mas criou todos os seus filhos
no temor do Senhor e segundo a Palavra de Deus. Nas férias, ela organizava “Classe
de Boas Nova” e convidava todas as crianças da rua para falar das “Boas Novas
do Evangelho”. Como não era apoiada pelo marido, lavava roupa para os vizinhos
para ganhar o dinheiro que custeava todo o material e presentes para as
crianças que não faltassem nenhum dia.
Eu a encontrei se recuperando de uma fratura causada por uma
queda no quintal. Ela não se lembrava de mim no primeiro momento, pois vai
fazer 80 anos no final do ano e saí de Brasília há 33 anos. Mas depois que
falei quem eu era e de quem era filha, ela não parou mais de falar. A cada 5
palavras uma era sobre Deus, Seu amor, Seu cuidado e gratidão pela sua
Salvação. Depois de tirar uma foto com ela eu disse a minha principal razão
daquela visita. Com os olhos marejados e a voz embargada falei que o fiel
trabalho dela não havia sido em vão. Aquela garotinha de 7 anos que ouviu a
Palavra de Deus naquela “Classe de Boas Novas” ministrada por ela virara uma
missionária no Brasil por 16 anos e que agora estaria indo servir como
missionária no Haiti. Ela ficou emocionada em saber disto. E também com os
olhos marejados disso que foi o melhor presente que poderia ter recebido.
Algumas vezes Deus nos dá estes “presentes para o coração”.
Ele não disse que sempre veríamos os frutos de nossa semeadura. Só nos disse
para semear. Mas às vezes Ele nos permite conhecer estes frutos para honra e glória
de Seu Nome, para fortalecer a nossa fé e edificar o Seu povo. Naquele dia foi
o dia de Dona Eunice conhecer um pequeno fruto de sua semeadura que consolou
aquela serva fiel e dedicada e acariciou o seu coração. Foi também para mim um
presente poder rever aquela que perseverou em falar, não só para mim, mas para
todas as crianças da rua. Dizer obrigada por perseverar e não medir esforços
para proclamar o presente de Deus para os homens: Jesus Cristo, o Salvador.
Obrigada
Senhor pelo seu amor!

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